Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de setembro, 2014

Guerra da Cisplatina

     Quem tem acompanhado a série de postagens sobre a história do Rio Grande do Sul já deve ter notado que é impossível entendê-la dissociada do contexto da Bacia do Prata. É inegável a ligação da região - que hoje equivalem ao Uruguai e a Argentina - à formação histórica do RS. O próprio personagem do gaúcho tradicionalista é um misto de argentino, uruguaio, índio, negro, português e espanhol - não necessariamente nessa ordem. Ou seja, o gaúcho é fruto de toda essa "mistura" cultural, social, étnica e política.      A situação já tumultuada da região ficou mais intensa após a transferência da Corte portuguesa para o Brasil, em 1808. Com a família real no Brasil, a metrópole interiorizou-se na colônia, promovendo maior centralização do poder decisório e acentuou-se a atração exercida pela região da Cisplatina. Antes de mais nada, vamos comparar o território do Brasil de 1709 com o Brasil de 1821, nos mapas abaixo: 1709      Como a série de postagens é sobr

Escravidão Indígena e Africana no Rio Grande do Sul

       Os primeiros povoadores (vindos de Laguna) eram proprietários de índios administrados , um subterfúgio legal para disfarçar a situação de cativeiro dos nativos. Em 1758/59, a escravidão indígena foi formalmente proibida, mas continuou ocorrendo no século XIX até pelo menos a década de 1860, envolvendo interesses de fazendeiros, autoridades locais e até mesmo dos bugreiros , que utilizavam os índios em trabalhos nas suas plantações, estâncias e engenhos. Aliás, só pra provocar  o hábito gaúcho de tomar chimarrão vem dos indígenas. A palavra chimarrão, inclusive, tem origem na língua espanhola e está associado a xucro, bárbaro, bruto.      Embora fosse recorrente o uso da mão-de obra indígena no Rio Grande do Sul, já a partir do século XVIII houve predomínio da escravidão africana. Nos Campos de Viamão, em 1751, 42% da população era de escravos africanos e 3% de escravos indígenas. Esse percentual era semelhante ao das zonas mineradoras ou de plantation. Em média 2/3 das re

20 de Setembro: "precursor da liberdade" às custas da escravidão!

     Hoje, a intenção não é trazer um estudo sobre algum período da história do Rio Grande do Sul mas, nesse dia em que os gaúchos comemoram a Revolução Farroupilha, lanço apenas essa provocação: a vergonha está em ser escravo ou em escravizar? Ter virtude é ser livre e fazer sua liberdade valer permitindo que o outro possa, também, ser livre. Não questiono o fato de se comemorar no 20 de setembro uma revolta da qual o RS saiu derrotado ou o fato de se comemorar uma revolução que não aconteceu pois os "revolucionários" eram grandes e poderosos proprietários de terras - ou seja, não queriam nenhuma mudança real na estrutura social mas, tão somente, por maior favorecimento junto às leis federais. O questionamento é por se comemorar uma guera na qual, por longos 10 anos, escravos lutaram ao lado de seus donos com a promessa de liberdade e esses mesmos escravocratas - tratados como heróis pelo tradicionalismo gaúcho - terem desarmado seus negros e jogado eles ao combate com as

A economia do Rio Grande do Sul colonial (séculos XVIII e XIX)

     A produção de trigo e a atividade pecuária inseriram economicamente o Rio Grande do Sul no mercado interno brasileiro, com estímulo da própria Coroa que visava integrar definitivamente a região no império ultramarino português.        A triticultura foi  atividade econômica que provocou o enriquecimento e a ascensão social de alguns açorianos (auge entre 1787 e 1813), inclusive com acesso à mão-de-obra africana. Embora já houvesse incentivo da Coroa para a produção de trigo em terras brasileiras, foi somente no solo gaúcho que a cultura encontrou solo apropriado e foi após 1781 que os brancos ocupantes da região tiveram interesse em investir na plantação. Na época, o litoral era a área de maior produção com 41% da área cultivada e 45% da safra. Se, em 1781, a colheita foi de 1.455 toneladas, em 1816 atingiu 10.800 toneladas de trigo. A maior parte desse trigo ia para o Rio de Janeiro. Há, inclusive, um registro de exportação do trigo para a Metrópole.      Vários fatores

Povoamento Inicial do Rio Grande do Sul: a Colonização Açoriana

Antes, um parêntese sobre o processo de apropriação de terras       As terras eram concedidas por meio de sesmarias e datas, que eram porções do território entregues pela Coroa aos súditos com a obrigação de povoar e cultivar a terra. Esse sistema, já vigente em Portugal desde 1375, foi estendido às colônias ultramarinas visando garantir o povoamento do território e a delimitação das fronteiras. Foi a partir de 1750 que ocorreu uma certa intensificação das concessões. Aqui no Continente de São Pedro (Rio Grande do Sul colonial) o povoamento geral intensificou-se após 1764. Foi nesse ano que o Cel. José Custódio de Sá e Faria assumiu o governo do Continente com árduas tarefas: estabelecer os açorianos, cumprir a entrega das concessões prometidas, controlar os índios, eliminar a escravidão indígena, capacitar as defesas (construção de fortins no rio Taquari) e fomentar a agricultura (incentivo ao cultivo de trigo e de linho-cânhamo). Devido à invasão espanhola à vila de Rio Grande

O Povoamento Inicial do Rio Grande do Sul: Rio Grande

   Antes de uma cidade ser fundada, na origem estabelece-se um núcleo inicial de povoamento que evolui para a formação de uma vila e, posteriormente, um ato oficial eleva a vila ou freguesia à categoria de cidade. Mas nem todos os núcleos iniciais de povoamento se tornam vilas e, igualmente, nem todas as vilas se tornam cidades.       A vila de Rio Grande estava estrategicamente localizada no canal de entrada da Lagoa dos Patos, cujo controle dava acesso ao interior do Continente - o que facilitava a questão comercial da vila. Além disso, sua localização era estratégica na rota Sacramento-Laguna. Ou seja, era imperioso estabelecer ali um núcleo de povoamento para exercer o domínio territorial. O empreendimento inicial foi realizado, em grande parte, por particulares. Portugal, oficialmente, envia o Brigadeiro Silva Paes para criar uma colônia de povoamento em 1737. Na cidade, Portugal autorizou a construção de uma fortaleza militar. E, em 1751, a povoação é elevada à Vila com a in

O Povoamento Inicial do Rio Grande do Sul: Os Campos de Viamão

    Viamão, hoje parte da Grande Porto Alegre, era uma zona de passagem entre laguna e a Colônia de Sacramento até meados do século XVIII. A maioria dos seus primeiros povoadores, inicialmente, só preencheu os campos com animais mas, dada a riqueza ecológica do local, alguns colonizadores já começavam a se fixar por ali, como ocorrera com Cosme da Silveira (1725) e Francisco Carvalho da Cunha (1741). Esse último foi o responsável por erguer a Capela de Nossa Senhora da Conceição.       Com o início do povoamento, Viamão foi elevada à categoria de freguesia em 1747, desmembrando-se de Laguna. Aliás, boa parte dos moradores de Laguna acabaram se transferindo para os campos sulinos. Viamão foi sede das primeiras estâncias de criação de gado. Pelo local, ainda, transitavam grandes rebanhos de gado e de cavalos vindos da campanha do Rio da Prata para serem comercializados em Laguna. Com o crescimento da exploração da região das Minas Gerais, aumentou a necessidade de abastecimento e tr

História do Rio Grande do Sul - Os Sete Povos das Missões

     Instrumento importante da Igreja na Contra-Reforma, a Companhia de Jesus foi criada por Inácio de Loyola, em 1534 (oficializada pelo Papa Paulo III em 1540), com o objetivo de "recatolizar" as regiões convertidas ao protestantismo. Sua atuação na América foi marcante, mas estiveram, também, na Índia, China e Japão durante essa época. Na América Portuguesa, a atuação dos jesuítas iniciou-se em 1549 em Salvador - na América Espanhola iniciou em 1610.      Nem sempre os jesuítas eram eficazes em sua conversão dos nativos. Após uma conversão inicial, marcada pelo batismo, muitos guaranis retornavam às suas práticas indígenas não sendo fieis às práticas e costumes cristãos. As reduções, no entanto, serviram à Coroa portuguesa, pois o "adestramento" dos nativos facilitava o acesso de mão-de-obra barata e abundante aos paulistas que tinham grande dificuldade de fazer cativos indígenas. Como eram hábeis agricultores, os tupi-guaranis eram "de grande valor&qu

História do Rio Grande do Sul - Fronteiras em movimento

     Quem curte estudar com a ajuda de mapas - um método muito bom! - já deve ter catado mapas do Rio Grande do Sul nos séculos XVII, XVIII... Bem, vamos recordar que ainda não existia o Rio Grande do Sul propriamente dito. Se formos um pouco mais longe, nessa época nem mesmo Estados nacionais ainda eram unificados e territorialmente definidos. A Itália, por exemplo, só virou a Itália que conhecemos em 1870. E a Alemanha, em 1871. A unificação territorial visa garantir a existência jurídica de um Estado que, a partir daí passa a ser gerido econômica, social e politicamente de modo autônomo ao de seus vizinhos e integrado dentro de suas fronteiras. Todavia, isso não se aplica para o Rio Grande do Sul no período colonial brasileiro. O mais correto seria pensarmos o espaço fronteiriço como uma fronteira em movimento , com intensa circulação de homens e de mercadorias, em um contexto demográfico bastante heterogêneo e numa conjuntura de instabilidade política.      A presença de esp

História do Rio Grande do Sul - os primeiros habitantes

       Inicio aqui uma série de postagens sobre a História do Rio Grande do Sul. Quem já prestou Vestibular da UFRGS sabe que a universidade sempre cobra questões acerca da temática regional e não há muito material online sobre o assunto. Por isso, tratarei dos principais pontos desde os primeiros habitantes até a fase mais recente da história do estado. Dúvidas, sugestões e esclarecimentos, deixem um comentário que atenderei.           A Banda Oriental, região que atualmente corresponde ao Rio Grande do Sul e Uruguai, tem seu território comprovadamente ocupado há pelo menos 12.000 anos, quando indígenas em tribos de vida nômade e semi-sedentária já transitavam pela região. Os guaranis eram os mais numerosos, a maioria oriunda da Amazônia há cerca de 2.000 anos. Eles ocupavam quase todo o litoral, a parte central do Estado até a fronteira atual com a Argentina. Qualquer semelhança com a figura tradicionalista do gaúcho não é mera  coincidência. À esquerda,  o guarani com